Adalberto Neto, 766 mil seguidores: o homem que fez o Brasil ouvir — e a Europa já está pronta para escutá-lo
Jornalista, dramaturgo e vencedor do Prêmio Shell de Teatro, Adalberto Neto tem 766 mil seguidores no Instagram e uma missão clara: fazer quem nunca sofreu racismo sentar, ouvir — e se incomodar do jeito certo.
Adalberto Neto começou a falar sobre racismo do jeito que muitos ativistas começam: com raiva. Com razão. Mas percebeu que a raiva, sozinha, fechava portas. Então mudou a abordagem — não o conteúdo, não a verdade, não a urgência — e passou a convidar em vez de confrontar. O resultado? Passou a furar bolhas que antes pareciam impermeáveis.
Jornalista formado, ex-repórter do Grupo Globo, dramaturgo e vencedor do Prêmio Shell de Teatro 2021 na categoria dramaturgia pela peça Oboró – Masculinidades Negras, Adalberto é hoje um dos nomes mais relevantes do debate racial no Brasil. Com mais de 766 mil seguidores no Instagram e uma linguagem que combina profundidade e humor, ele transformou redes sociais num palco para conversas que o Brasil ainda tem dificuldade de ter.
A sua voz não parou no Brasil. Pelos ecrãs, chegou à diáspora — aos brasileiros em Lisboa, Berlim, Paris, Londres que o seguem e partilham os seus vídeos nos grupos do WhatsApp e nas redes sociais. E há uma razão para isso: ele fala de algo que a Europa escancara de um jeito que o Brasil ainda consegue disfarçar.
O Portal VIB conversou com ele sobre racismo estrutural, antirracismo — e o que os brasileiros que vivem na Europa precisam urgentemente questionar sobre si mesmos.

O que você está a fazer diferente que faz com que quem nunca sofreu racismo também queira ouvir?
No início, eu falava de uma forma que apenas pessoas pretas me compreendiam. Minhas falas eram carregadas de raiva e revolta — sentimentos gerados pelo fato de o racismo negar oportunidades em todos os níveis. Mas percebi que muitas pessoas brancas “vestiam a carapuça” e sentiam que eu falava com raiva delas, quando na verdade a raiva era dos racistas.
A mudança crucial foi adotar uma abordagem mais diplomática, convidar todos para sentar e ouvir de forma mais tranquila. Ao deixar de lado a revolta imediata na comunicação, consegui furar bolhas e alcançar a diversidade — fazer com que pessoas que não são pretas também se sentissem incluídas no debate.
O que é racismo estrutural — de verdade, na prática, no dia a dia?
É o que acontece numa terça-feira qualquer. É o segurança do mercado que persegue pessoas pretas para ver se não vão roubar nada. É o policial que assume que um homem preto correndo cometeu um crime. É a senhora que atravessa a rua ou aperta o passo ao ver um negro, temendo pelo celular.
É o vendedor que assume que o cliente preto não tem poder de compra e já oferece “camisas baratinhas” em promoção. É o patrão que doa roupas velhas e estragadas para os filhos da empregada doméstica, assumindo que, para eles, aquilo vai ser “roupa de sair”.
Não são situações extraordinárias. São o cotidiano de milhões de pessoas.
Existe uma pergunta que toda pessoa deveria se fazer hoje para perceber onde está nesta história?
Sim. Ao entrar em qualquer ambiente considerado “bacana” — um restaurante, uma festa, um festival, um consultório médico — olhe ao redor e pergunte: por que não tem pessoas pretas aqui?
Por que a maioria desses lugares é majoritariamente branca se 56% da população brasileira é preta? Quando você faz essa pergunta, a resposta inevitavelmente remete à história sobre a qual o país foi construído. É simples assim — e é incómodo assim.
Qual a diferença entre não ser racista e ser antirracista?
A diferença é o posicionamento.
Uma pessoa que “não é racista” pode não excluir nem discriminar negros, pode tratar bem a todos — mas permanece silente diante das opressões que eles sofrem. Já o antirracista se posiciona ativamente contra essa opressão.
Pensa assim: se você vê um homem agredindo uma mulher e não faz nada, você pode não ser machista — mas certamente não é antimachista. No racismo é igual. Não basta não ser o agressor. É preciso agir contra o cenário de injustiça.
O que um brasileiro na Europa precisa questionar em si mesmo?
Esta é a pergunta que mais importa para quem lê o Portal VIB.
Para o brasileiro branco na Europa, o choque de realidade é entender que lá ele é visto como latino — não como branco. É vergonhoso ver brasileiros reproduzindo discursos de superioridade branca no Brasil, baseados na visão do colonizador europeu, sendo que, ao chegarem na Europa, são tratados como “lixo” por esses mesmos europeus.
Para muitos negros, como jogadores de futebol, a Europa funciona como uma escola: é lá que eles finalmente se descobrem pretos, ao sofrerem o racismo de forma direta e agressiva — sem a ambiguidade que existe no Brasil.
Qual é o papel de todos nós nessa luta?
Entender que não existe democracia sem democracia racial, de gênero ou de diversidade. Enquanto houver desigualdade, haverá injustiça — e a injustiça gera revolta, o que impede a paz social.
Se a paz de um grupo é retirada, esse grupo vai, de alguma forma, afetar a paz dos outros para lutar pelos seus direitos. Lutar por oportunidades iguais para todos não é generosidade. É o único caminho para a paz real.
Qual a mensagem final para os leitores do Portal VIB?
Que ampliem a consciência — e que não vejam esta conversa como um ponto final, mas como um ponto de partida.
O racismo não acontece apenas em grandes estádios ou shoppings. Acontece ao nosso lado. Quando entramos num consultório e confundimos o médico preto com um enfermeiro ou faxineiro. Quando não reparamos que o ambiente “bacana” onde estamos não tem pessoas pretas.
Tragam estas questões para o dia a dia. Pratiquem o pensamento crítico. A consciência precisa ser constante — só assim todos podemos evoluir.
Adalberto Neto é jornalista, dramaturgo e criador digital. Vencedor do Prêmio Shell de Teatro 2021 na categoria dramaturgia pela peça Oboró – Masculinidades Negras. Siga-o no Instagram: @oadalbertoneto
