“O direito existe para dar segurança nos momentos mais importantes da vida” — Elaine Brito, advogada de imigração em Portugal, fala ao Portal VIB
Ela já ouviu de tudo: gente que perdeu meses por seguir conselho de grupo de Facebook, gente que chegou a Portugal sem visto “para resolver depois” e gente que teve o processo inteiro reconstruído do zero por causa de documentos contraditórios. Elaine Brito, advogada carioca formada pela UERJ e hoje referência em Direito de Imigração e Nacionalidade Portuguesa, conversou com o Portal VIB sobre os erros mais comuns dos brasileiros na Europa, o que muda com o novo pacote migratório português e por que a decisão certa “tem de ser tomada no início” — nunca depois.
Do Rio de Janeiro para o Direito de Imigração em Portugal
Formada em Direito pela UERJ, Elaine só entendeu a dimensão real do Direito de Imigração quando viveu, na pele, o próprio processo migratório. Foi esse contacto direto com a burocracia — e com o peso emocional por trás dela — que a levou a dedicar a carreira, de forma exclusiva, ao Direito dos Estrangeiros e Nacionalidade Portuguesa.
“O papel do advogado não se limita a conduzir processos: é dar segurança, clareza e uma estratégia a alguém que está a viver um momento decisivo”, resume.
Regularização, NAV e nacionalidade não são a mesma coisa
Um dos pontos que mais gera confusão — e que Elaine faz questão de esclarecer — é a diferença entre três processos que muita gente trata como sinônimos:
- Regularização: permite ao estrangeiro residir legalmente em Portugal.
- NAV (Notificação de Abandono Voluntário): ato administrativo que exige análise caso a caso e pode ser contestado.
- Nacionalidade portuguesa: muda o estatuto da pessoa — de residente a cidadã, desde que cumpridos os requisitos legais.
O erro mais comum, segundo ela, é achar que existe “um caminho padrão, igual para todos” — ou pior, decidir com base no que se lê nas redes sociais. Ela cita o caso de alguém que tinha todos os requisitos para a via mais rápida, mas seguiu orientação de um grupo do Facebook, escolheu o caminho errado e perdeu meses.
O que muda com o novo pacote migratório português
Segundo Elaine, mais do que uma alteração pontual na lei, trata-se de uma mudança de rumo: a tendência é resolver os processos migratórios ainda antes de a pessoa entrar em Portugal, reduzindo as vias de regularização feitas já em território nacional.
Na prática:
- Quem ainda está a planear a vinda precisa organizar tudo com mais antecedência e definir a estratégia jurídica logo no início.
- Quem já reside legalmente no país continua protegido pelos direitos que já tem.
- Quem depende de uma via de regularização deve acompanhar de perto a evolução da lei.
“Já não dá para deixar para resolver depois”, resume.

Os três erros que ela mais vê no escritório
- Seguir orientação de redes sociais sem confirmar se aquilo se aplica ao caso concreto.
- Escolher sozinho uma via de regularização, sem análise jurídica prévia, “porque foi o que deu certo para um conhecido”.
- Deixar passar prazos ou notificações da AIMA, esperando uma resposta que não chega a tempo.
Ela lembra ainda de um caso em que o cliente tinha, de facto, direito à regularização — mas os documentos que já havia reunido por conta própria contradiziam a via pretendida. “Tivemos de reconstruir o processo praticamente do zero. O direito dele existia desde o início. O que faltou foi cuidado na forma como o processo tinha sido preparado.”
É possível pedir nacionalidade ainda no Brasil? Sim.
Grande parte dos processos de nacionalidade pode ser iniciada sem que o requerente resida em Portugal — é o caso, por exemplo, de filhos, netos e, em certas situações, cônjuges de cidadãos portugueses. “O primeiro passo não é entregar o pedido, é confirmar se o direito existe de facto e reunir a documentação necessária”, explica.
Quanto tempo demora cada processo (com uma ressalva importante)
Elaine faz questão de avisar: prazos administrativos mudam com frequência, e os números abaixo são médias observadas nos processos recentes do escritório — não garantia.
- Regularização em solo português: entre 3 e 18 meses, dependendo da via e da tramitação na AIMA.
- NAV: a notificação pode determinar saída voluntária em até 20 dias — agir imediatamente é essencial.
- Nacionalidade: entre 1 e 3 anos, variando com o fundamento do pedido e a conservatória responsável. Em casos mais complexos ou com maior volume de processos, o prazo pode ultrapassar os 3 anos.
A lista de documentos para preparar ainda no Brasil
Passaporte válido, certidões de nascimento e casamento atualizadas, certificado de antecedentes criminais, diplomas, históricos escolares, comprovativos de experiência profissional e documentos financeiros. Também vale verificar, ainda no Brasil, quais desses documentos precisam de apostila da Haia — a falta de um só costuma obrigar a pedi-lo à distância, o que encarece e atrasa todo o processo.
“O ideal é definir primeiro a estratégia e só depois montar o processo”, reforça.
Para quem tem medo de começar
“O medo é compreensível — mudar de país pesa na vida e na família de qualquer pessoa”, diz Elaine. Mas o conselho muda conforme onde a pessoa está:
- Já em Portugal: regularizar-se o quanto antes. Quanto mais tempo passa sem enquadramento legal, mais frágil fica a posição perante a AIMA.
- Ainda no Brasil: vir com o visto certo já tratado antes da viagem, e não pensar em regularizar depois de chegar.
“Nos dois casos, o tempo perdido raramente se recupera. A decisão certa, tomada no início, é o que sustenta todo o processo depois.”

Mensagem para a comunidade brasileira na Europa
“Migrar é um ato de coragem e, quando feito com planeamento e responsabilidade, pode transformar não só um endereço, mas uma vida inteira. Não deixem que o medo, a desinformação ou as dificuldades do caminho os façam desistir dos vossos projetos.”
Como contactar a Dra. Elaine Brito:
Instagram: @elainebritoadvogada
Site: www.elainebritoadvogada.com
WhatsApp: +351 934 267 042
Entrevista concedida ao Portal VIB.
