“A Europa me abraçou e hoje é minha casa” — Vando Oliveira, 20 anos a levar a música brasileira ao coração da Europa
Sobrinho do lendário Neguinho da Beija-Flor, Vando Oliveira chegou à Alemanha sem ter onde dormir. Duas décadas depois, é uma das vozes do samba e do pagode mais reconhecidas da Europa. Esta é a sua história
Vando, você está na Alemanha há 20 anos a fazer música brasileira. O que te fez escolher a Europa — e o que fez você ficar?
Na verdade não foi escolha. Foi uma combinação de coisas que deram errado no início e acabei ficando na Europa para tentar alguma possibilidade de mudar de vida, melhorar meu financeiro que estava bem difícil. Então vim meio como refugiado econômico. Com o tempo a Europa me abraçou e me adaptei também. Hoje é mais que escolha — é minha casa. Estranho, porque a gente acaba tendo dois países como casa.
O que a música brasileira tem que conquista os europeus de uma forma que outras músicas não conseguem? Qual é o segredo?
O principal é a originalidade. Somos diferentes, não tem como negar. A gente ri até dos erros, improvisa, cria na hora, dá um jeito de fazer as pessoas dançarem junto. O europeu não tem muito disso — são mais de planejamento e seguir as regras. Se algo der errado ou o público não dançar, não importa, vão continuar o programado. A música brasileira abraça o público. E se ninguém dançar, a gente muda o repertório na hora.
Como é levar o samba, o pagode, a MPB para um público que não cresceu com isso — como você cria essa conexão em palco?
É difícil, não é uma tarefa das mais simples. Como não entendem as letras, é preciso fazer sentirem na alma o que estamos transmitindo. Tem que ter muita verdade no que canta e sentimento musical. Ou não vinga — você não consegue fazer alguém sentir alguma emoção se você mesmo não estiver sentindo isso.
O samba tem raízes muito profundas na história e na alma do Brasil. Como você explica esse significado a um europeu que nunca viveu o carnaval?
Não se explica. Apenas deixa o ritmo ancestral fazer a parte dele. Do nada os pés começam a bater e alguns já saem sambando. Mas a partir daí o samba já tocou no coração deles.

Para os brasileiros que vivem na Europa, a música é muitas vezes a ponte com as raízes. Já viveu algum momento em que percebeu que a sua música foi esse elo para alguém?
Durante a pandemia recebi tantas mensagens nas lives que eu fazia. Eu tentava animar as pessoas através da internet e muita gente vinha me dizer que a minha música estava ajudando a superar uma depressão. E em um caso especial, uma amiga que estava com câncer em tratamento me ligava e eu cantava pra ela via vídeo. A música é o remédio pra alma. Conecta o passado com o presente. Eu canto para todas as idades, mas tento, na maioria das vezes, matar a saudade dos nossos conterrâneos.
Você vem de uma família com uma ligação muito forte ao samba e à música brasileira — é sobrinho do lendário Neguinho da Beija-Flor. Como essa herança moldou o músico que você é hoje?
Em tudo. Eu cresci vendo o meu tio Neguinho da Beija-Flor cantar no carnaval e nos shows dele. Tanto que meu estilo tem muita influência dele. Minha família sempre foi meu maior exemplo — do que fazer, da perseverança e do respeito pela música.
Que mensagem você enviaria — através da música — a todos os brasileiros que estão longe de casa neste momento?
Uma das letras de um samba que eu mais gosto: “Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé, mande essa tristeza embora. Basta acreditar que um novo dia vai raiar e a tua hora vai chegar. Você vai vencer e tudo valerá a pena!”

Uma mensagem especial para os leitores do Portal VIB espalhados pelo mundo — o que você quer que eles saibam?
Uma mensagem: tudo na vida tem um porquê. E às vezes a gente não entende a vontade de Deus, principalmente quando está muito difícil. Mas quando você confia e continua em frente, as oportunidades aparecem. Então seja grato até nos dias ruins, porque às vezes essas dificuldades vêm para te tornar mais forte.
Eu sou um exemplo disso. Fiquei na Europa sem ter onde dormir e sem ter o que comer. E hoje estou aqui, 20 anos depois, celebrando e agradecendo a Deus por cada dia.
Eu sei que a Europa não é fácil e a gente apanha bastante. Mas, se for o teu sonho, acredite — você consegue.
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