Entrevistas

“Regularizar a situação fiscal na Europa não significa pagar mais impostos — significa proteger o que você conquistou” — Vanessa Leme, advogada brasileira na Alemanha

Poucos temas geram tanta confusão entre os brasileiros que vivem na Europa quanto os impostos. Onde declarar? O que acontece com os rendimentos no Brasil? O que é a saída definitiva? Falámos com Vanessa Leme, advogada brasileira especializada em direito fiscal internacional, com escritório na Alemanha e registada nas ordens de Portugal e do Brasil

Vanessa, qual é a primeira coisa que um brasileiro deve regularizar do ponto de vista fiscal ao chegar na Europa?

A prioridade absoluta é atentar e cumprir as regras de residência fiscal de ambos os países. Não basta regularizar-se no país de destino; é preciso informar oficialmente à Receita Federal do Brasil que o brasileiro não é mais um residente fiscal no país. Isso evita que os dois países exijam, ao mesmo tempo, impostos sobre a renda global — e que se pague imposto de renda desnecessariamente.


O que é a saída definitiva do Brasil e quais são as consequências reais de não fazê-la?

É um processo obrigatório para quem deixa o Brasil com a intenção de morar fora, devendo ser comunicado na data da saída — ou quando a pessoa permanece no exterior por mais de 12 meses sem comunicar oficialmente a saída.

Enquanto não formalizada, as consequências são sérias. O Brasil continuará exigindo imposto sobre rendimentos obtidos no exterior. Comprar imóveis ou investir fora do Brasil sem ter declarado a origem desse dinheiro cria um patrimônio invisível para o Fisco, o que gera multas pesadas. Se um dia a pessoa decidir retornar ao Brasil, terá de declarar todos os bens conquistados no exterior — sem a saída fiscal formalizada, não há como provar como esse patrimônio foi acumulado, e a Receita Federal cobrará impostos retroativos sobre tudo.

Além disso, ao tornar-se não residente fiscal, os bens mantidos no Brasil ou rendimentos de fontes brasileiras deverão ter o seu tratamento fiscal ajustado. Sem esse ajuste, surgem conflitos de dados que podem gerar pendências no sistema da Receita Federal, bloquear contas bancárias e originar fiscalizações.


Tenho rendimentos no Brasil — aluguel, investimentos — e vivo na Alemanha ou em Portugal. Onde declaro? Como evito pagar imposto duas vezes?

A regra muda completamente consoante o país de residência fiscal.

Em Portugal, existe um acordo internacional com o Brasil para evitar a dupla tributação. Esse acordo define qual país tem competência para tributar cada tipo de renda e estabelece métodos para eliminar ou mitigar a dupla tributação — seja isentando o rendimento originado no outro país, seja permitindo que o imposto pago na fonte seja compensado com o imposto devido no país de residência. É fundamental sublinhar que o acordo não prevê desobrigação de declarar esses rendimentos, nem uma isenção fiscal automática e total. A consulta a um profissional qualificado é indispensável.

Na Alemanha, como não existe acordo contra a dupla tributação com o Brasil, a situação torna-se mais complexa. A Alemanha tributa a renda global dos seus residentes fiscais de acordo com a legislação interna. Evitar o pagamento duplicado exige uma análise detalhada da lei alemã para verificar o enquadramento do rendimento e a viabilidade de compensar o imposto pago no Brasil. O acompanhamento por assessoria jurídica especializada é praticamente obrigatório.


Há diferenças importantes entre a situação fiscal de um brasileiro na Alemanha e em Portugal?

Sim, as diferenças são estruturais e envolvem dois fatores determinantes: a existência do acordo internacional e a barreira linguística.

Quem reside em Portugal beneficia de um acordo ativo com o Brasil, o que simplifica as regras de competência tributária. Na Alemanha, devido à denúncia do tratado em 2005, não existe essa salvaguarda. Qualquer planeamento de ativos ou rendimentos exige análise exclusiva das regras unilaterais da legislação interna alemã.

Há ainda o fator idioma: em Portugal, a comunicação com o Fisco e a interpretação da lei ocorrem em português. Na Alemanha, o contribuinte enfrenta o alemão técnico-tributário — uma barreira linguística que eleva significativamente o risco de erros declaratórios e torna o suporte de assessoria especializada quase indispensável.


Qual é o erro fiscal mais caro que os brasileiros cometem — e que muitas vezes só descobrem anos depois?

A manutenção de uma dupla vida fiscal. É o caso do brasileiro que se muda para a Europa, passa a declarar os rendimentos locais no novo país de residência, mas continua a preencher a declaração no Brasil como se ainda lá morasse — omitindo em ambos os países a sua renda global.

Atualmente, as administrações tributárias cruzam informações bancárias internacionais de forma automática através de um acordo multilateral de troca de informações fiscais. Quando a inconsistência é identificada, o contribuinte é sujeito à cobrança retroativa de impostos sobre a renda global, acrescida de juros e multas elevadas.

Na Alemanha, há ainda um risco adicional: os rendimentos globais integram a base de cálculo das contribuições sociais. A não declaração de valores de fonte brasileira ao seguro-saúde e à previdência alemã resulta em revisões retroativas onerosas — um custo inesperado que muitos brasileiros só descobrem tarde demais.

Um brasileiro que está na Europa há anos e nunca regularizou nada fiscalmente — ainda dá tempo? Qual é o caminho?

Sim, é perfeitamente possível regularizar, mas exige estratégia técnica. O processo consiste em analisar o histórico financeiro dos últimos anos, identificar a data em que a residência fiscal foi perdida de facto, retificar declarações quando necessário e formalizar a saída definitiva.

É importante saber que o Fisco brasileiro tem um prazo de cinco anos para cobrar impostos não declarados ou aplicar penalidades. Passado esse período, o direito de lançar o imposto extingue-se — mas a forma de cálculo desse prazo decadencial deve ser analisada por um profissional, pois o termo inicial da contagem depende do histórico declaratório de cada contribuinte.

A regularização voluntária e preventiva, realizada antes de a Receita Federal iniciar qualquer procedimento de fiscalização, evita a aplicação de multas de ofício que variam entre 75% e 150% sobre eventuais impostos devidos.


Que dica urgente você daria a um brasileiro que acabou de chegar à Europa e ainda não pensou nos impostos?

A situação fiscal é estritamente individual e depende da natureza das rendas, dos ativos e das atividades de cada pessoa em cada país. O primeiro passo prático e urgente é determinar com precisão a data da perda da residência fiscal no Brasil e a data da caracterização da residência fiscal no país de destino.

A ausência de planeamento imediato expõe o contribuinte ao enquadramento no conceito de dupla residência fiscal, sujeitando a sua renda global à tributação simultânea por ambos os Estados. O custo de um planeamento preventivo é significativamente inferior aos encargos de uma regularização tardia — que pode envolver retificações de declarações, pagamento de juros e penalidades por descumprimento de obrigações acessórias.

Uma mensagem especial para os leitores do Portal VIB espalhados pelo mundo — o que você quer que eles saibam?

Construir uma vida e um patrimônio no exterior é uma grande conquista. Mas a tranquilidade para usufruir disso depende de estar em dia com as regras fiscais. Regularizar a sua situação não significa necessariamente pagar mais impostos — significa proteger o que você conquistou e garantir que a sua transição internacional ocorra com total segurança jurídica, sem surpresas desagradáveis no futuro.


Vanessa Leme é advogada brasileira especializada em direito fiscal internacional, com escritório na Alemanha. Registada na OAB/SP, OA/Lisboa e na Rechtsanwaltskammer Celle.

Contacto: info@vanessaleme.com | vanessaleme.com | @vanessalemelaw

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