Ele não sabia que era brasileiro até os 12 anos. O que Joshua encontrou quando finalmente foi ao Brasil mudou quem ele é
Joshua Alagbe nasceu e cresceu na Holanda, filho de mãe holandesa e pai nigeriano — ou pelo menos era o que ele sabia. Aos 12 anos, os pais sentaram com ele e contaram a verdade: o pai com quem cresceu era seu padrasto. Seu pai biológico era brasileiro. “Nunca fiquei bravo com eles; entendo por que fizeram essa escolha”, diz. O que veio depois dessa revelação — a busca, o semestre em São Paulo, o português aprendido na rua, o documentário em produção — é uma das histórias mais honestas sobre identidade que um filho de brasileiro na Europa pode contar.
Crescer em Edam, cidade pequena e majoritariamente holandesa, com pai nigeriano pastor de uma igreja principalmente negra e mãe holandesa branca, significava não caber completamente em nenhum grupo. “Eu não era marroquino e também não era visto como totalmente holandês.” Na igreja do pai, também era diferente. “Durante muito tempo, senti que não pertencia completamente a nenhum grupo.” Com sete ou oito anos, ainda sem saber da sua origem, ele já tinha um fascínio estranho pelo Brasil. “Pensava que, se pudesse escolher, gostaria de ser meio brasileiro. Era apaixonado por futebol e admirava a alegria e a personalidade dos brasileiros.” Descobrir anos depois que realmente era meio brasileiro foi, nas palavras dele, “muito especial”.

Aos 20 anos, foi para São Paulo estudar um semestre. Nunca tinha estado no Brasil, quase não falava português e queria conhecer o país do pai biológico, a avó, a cultura e a língua. Chegou como estranho — e se sentiu em casa. “Me senti como um peixe na água. Lá encontrei muita gente com essa mesma energia.” Conforme o português ia melhorando, algo inesperado acontecia: “Muita gente nem percebia de imediato que eu tinha crescido na Holanda.” Pela primeira vez em 20 anos de vida, ele não era a exceção. “Senti que eu não era a exceção.” Características que na Holanda o faziam sentir diferente — a extroversão, o gosto por conversar com desconhecidos, a facilidade de criar conexões — eram completamente naturais no Brasil.
O português não foi herança, foi conquista. “Só comecei a aprender aos vinte anos e mergulhei de verdade na língua: tinha aulas, anotava palavras que ouvia na rua, assistia a séries com legendas e conversava com as pessoas sempre que podia.” Hoje consegue pensar diretamente em português. “O holandês e o inglês vieram naturalmente pela minha criação. O português foi uma escolha que conquistei com esforço.” E é essa escolha que cria pontes: “Quando digo que sou meio brasileiro e começo a falar português, uma ponte se cria imediatamente.”

Apresentador de TV na Holanda e criador de conteúdo com dezenas de milhares de seguidores, Joshua usa a câmera para contar histórias que a maioria ignora. Num vídeo gravado durante o Carnaval no Brasil, quis mostrar o lado menos visível da festa: conversou com vendedores ambulantes que trabalham por semanas e, às vezes, dormem na rua para garantir um bom lugar. “Graças ao português, pude ouvir essas histórias diretamente.” Hoje está em produção um documentário sobre seu pai biológico — sobre identidade, família, pertencimento e origens. A identidade misturada não é só tema pessoal. É o fio que conduz todo o seu trabalho.

Para jovens que cresceram na Europa com raízes brasileiras e não sabem onde se encaixam, Joshua tem uma frase que resume o que aprendeu: “Você pode ser europeu e brasileiro ao mesmo tempo. Uma coisa não exclui a outra. Nesse caso, 1 + 1 não é 2, é 3. Ter duas culturas é carregar duas riquezas.” E para quem ainda está no meio dessa busca: “Dê tempo a si mesmo. Com o tempo, essa dúvida pode virar uma força.”
