Elas se encontraram na Itália, construíram uma empresa juntas — e têm um recado que o mercado europeu ainda não quer ouvir
Gislene de Borba e Débora Kaiber não se conheciam antes de chegar à Itália. Não havia plano, não havia sociedade combinada, não havia projeto em comum. Havia duas brasileiras, em países de língua diferente, tentando construir algo no digital longe de casa. O encontro aconteceu. A parceria foi sendo construída. E em determinado momento, as duas perceberam que aquilo que começou como troca de experiências tinha se transformado em empresa.
Hoje são sócias. Estão desenvolvendo uma plataforma digital própria para o mercado europeu. E quando foram perguntadas o que o empreendedor brasileiro ainda não entendeu sobre marketing digital que o europeu já pratica naturalmente, interromperam a pergunta antes de responder: a premissa estava errada. “O Brasil está no mínimo cinco anos mais desenvolvido no digital em relação à Europa”, dizem. É esse tipo de clareza que define como as duas pensam sobre o mercado — e sobre a vida que escolheram construir fora do Brasil.

A divisão entre elas nunca foi de hierarquia. Foi de perfil. Débora tem presença forte na comunicação, no contato com pessoas, na frente das câmeras. Gislene prefere os bastidores — estratégia, lançamentos, tráfego, estruturação de processos. “Nós temos perfis bastante diferentes e talvez seja justamente isso que tenha feito funcionar”, explicam. Enquanto uma enxerga a oportunidade, a outra já está vendo o risco, a operação, o que ainda precisa ser estruturado. Não é acordo automático. É complementaridade.
Empreender em dupla fora do país, dizem, muda principalmente a qualidade das decisões. “Ter uma sócia não significa ter alguém que concorda com tudo. Significa ter alguém de confiança que consegue olhar para a mesma situação por outro ângulo.” E esse outro ângulo importa muito quando os desafios não são apenas de negócio — são também de cultura, legislação, idioma, mentalidade de mercado. A Itália não é o Brasil. O cliente europeu não responde da mesma forma, não comunica da mesma forma, não compra da mesma forma. Aprender a observar antes de reproduzir o que funcionou no Brasil foi, nas palavras de Débora, “uma lição muito importante”.
O momento em que souberam que havia algo real entre elas não foi num lançamento bem-sucedido nem num contrato fechado. Foi quando a conversa deixou de ser sobre projetos e passou a ser sobre empresa. “Já não estávamos pensando apenas no próximo lançamento. Estávamos pensando em produto, tecnologia, operação, clientes, mercado e crescimento.” Foi quando perceberam: estavam construindo algo juntas de verdade.

Débora fala com frequência sobre o que o digital pode fazer por brasileiros que chegam à Itália e acabam aceitando o primeiro subemprego que aparece. Mas tem cuidado com a forma como coloca isso. “Não existe milagre. Existe estudo, posicionamento, estratégia, consistência e trabalho.” O digital não é atalho — é uma possibilidade profissional que antes simplesmente não existia nessa escala. E quando a pessoa entende isso, diz ela, a coragem deixa de ser uma aposta no escuro e passa a ser uma decisão mais consciente.
Gislene acrescenta o que a Itália ensinou que o Brasil não teria ensinado: respeitar processos. “O Brasil me ensinou velocidade, adaptação e criatividade. A Itália me fez olhar mais para aquilo que sustenta o negócio: regras, processos, contratos, privacidade, estrutura empresarial e planejamento de longo prazo.” Não é uma coisa ou outra. É a combinação das duas. A agilidade brasileira com a visão de longo prazo europeia.
Para quem chega agora na Europa querendo empreender no digital, o recado das duas é direto: “Não jogue fora a profissional que você levou anos para construir só porque mudou de país.” Nem todo mundo precisa estar na frente da câmera. Há inúmeras possibilidades nos bastidores — estratégia, gestão, tecnologia, tráfego, criação, prestação de serviços. Elas mesmas são a prova disso. Perfis diferentes, trajetórias diferentes, um projeto em comum. “A Europa pode mudar o rumo da sua vida. Ela não precisa apagar a sua trajetória.”
