Ela mora na Holanda desde 2015 e não romantiza nada: “Você vai voltar ao Brasil e vai ver que não pertence mais lá”
Cecilia Dantas chegou na Holanda em 2015 sem manual, sem rede de apoio e com muita vontade de entender como tudo funcionava. O que começou como um canal no YouTube para registar a própria vida virou uma consultoria que hoje ajuda famílias brasileiras a chegarem mais preparadas a um país que não perdoa a falta de informação. Mãe de um menino de seis anos nascido na Holanda, ela fala sem filtro sobre solidão, maternidade e a verdade que ninguém conta sobre viver na Europa.
A decisão de virar consultora não foi planeada. Cecilia criou o canal para preencher uma lacuna que ela mesma sentiu quando chegou. “Era um diário virtual, que serviria para atualizar minha família, mas também para preencher essa minha sede de compartilhar a nova vida com o mundo”, conta. A virada aconteceu quando recebeu uma mensagem de um rapaz que, graças às dicas do seu vídeo sobre como encontrar emprego na Holanda, estava de mudança para cá, contratado por uma empresa. “Isso foi muito gratificante e um empurrão a mais para continuar.”
Mas a Holanda ensina rápido que o Brasil ficou para trás — e não de forma gentil. Para Cecilia, o momento em que a realidade despedaça quem chega com excesso de confiança é sempre o mesmo. “O fato de percebermos que aqui somos apenas mais uma. No Brasil, as pessoas sabiam do nosso valor. Aqui, ninguém sabe — então precisamos nos provar diariamente. É bem cansativo.”

A maternidade na Holanda foi outro choque cultural. O sistema holandês não trata a gravidez como doença — os ultrassons são mínimos, o parto em casa é incentivado, e a figura central não é o obstetra mas a parteira. Cecilia teve o parto no hospital por um sopro no coração, mas hoje diz que teria escolhido diferente. “As chances de intervenções em casa são menores.” O plano de parto que preparou não foi totalmente respeitado — e o conselho que dá a quem está prestes a parir na Holanda é direto: “Informem-se, estudem, usem os nove meses para aprender muito. E tenham uma doula, pois ela vai ser a sua advogada na hora H.”
Sobre a culpa de criar filho longe da família, Cecilia surpreende. “Não sinto culpa, para ser sincera. O que sinto é sobrecarga por não ter rede de apoio. Mas ter família perto não é garantia de apoio também — as pessoas têm as suas vidas.” O filho de seis anos cresce entre dois idiomas e duas culturas. O pai é holandês, a escola é holandesa, o mundo dele é holandês. Mas Cecilia não desiste. “Às vezes finjo que não entendo para que ele me responda em português. É uma luta diária.” Uma luta que parece estar a valer. “Com seis anos, ele já é apaixonado pelo Brasil, já foi lá três vezes e fala do país com muita frequência.”
Para quem chega sem se preparar, o preço é alto. O erro mais comum que ela vê é vir sem estudar o país — e subestimar o idioma. “Muita gente acha que o inglês é suficiente. Mas o inglês hoje é o básico, não o diferencial. O que vai abrir portas na Holanda é saber falar holandês.”
E para quem está a ler agora sentindo o peso da solidão, Cecilia não oferece conforto fácil. Oferece algo melhor: a verdade. “Sentir-se sozinha é normal e é algo que você vai sentir frequentemente. É um buraco que nunca fecha. Depois de um tempo, você vai voltar ao Brasil e vai ver que, apesar da saudade, não pertence mais lá. E também vai ver que nunca pertencerá cem por cento aqui.” Depois de uma pausa, completa: “São escolhas. Mas é uma jornada de muito aprendizado. E sim — vale a pena.”
