“Berlim é mesmo tão incrível quanto dizem? Quem mora lá há 12 anos responde sem filtro”
Em 2013, Elissa e Rodrigo saíram de Porto Alegre com cidadania italiana, inglês fluente e uma decisão tomada: a Alemanha. Não foi impulso — foi cálculo. A Europa do sul estava em crise, Berlim tinha vagas de emprego nas áreas deles com inglês como idioma oficial, e a cidade encantou à primeira visita. Doze anos depois, o que começou como uma aposta virou vida construída, canal no YouTube com anos de produção e uma perspectiva sobre a Alemanha que poucos criadores têm coragem de compartilhar.
A decisão de sair do Brasil não foi sobre sonho — foi sobre contas. “Do jeito que as coisas estavam, viveríamos vidas duras, com dinheiro contado para passar o mês”, conta Elissa. A vida em Porto Alegre também pesava de outro jeito: “Era muito limitada a fazer sempre a mesma coisa semana após semana, sempre naquele ritmo que conhecemos da limitação do que a segurança urbana permite.” Com a cidadania italiana de Rodrigo abrindo as portas da União Europeia, a questão não era se iriam — era para onde. A Alemanha venceu pelo mercado de trabalho aquecido e pela aposta que se confirmou: Berlim foi amor à primeira vista.

Mas Berlim é uma cidade que engana quem chega com imagem pronta. “Cabem 9 Parises aqui nos limites da cidade”, explica Elissa. Um bairro é rural, o próximo é tradicional alemão, o seguinte é colorido e cheio de imigrantes. “Algumas pessoas falam de Berlim como se fosse a cidade do techno e nada mais importa, mas é perfeitamente possível viver aqui e nem perceber o tanto de baladas por aí.” O que eles foram buscar era outra coisa: “Conhecer culturas do mundo, provar comidas do mundo todo, aproveitar toda a agenda cultural da cidade e realmente usar a cidade como se fosse a sala da nossa casa. E é isso que fazemos até hoje.”
De todos os desafios — burocracia, frio, distância da família —, um se destaca depois de doze anos. “Sem dúvida nenhuma o desafio foi e sempre será o idioma”, diz Elissa. “Não importa há quanto tempo estejamos aqui e o quão fluentes a gente pense que é, sempre aparece algo para nos lembrar que o aprendizado do alemão é infinito.” Entre chegar na Suíça e não entender nada, conversar com alguém que fala dialeto ou assistir a uma palestra sobre matéria escura no planetário de Berlim, a língua não para de surpreender.
O Alemanizando começou como hobby — uma forma de se forçar a aprender mais sobre o país onde decidiram viver. Quando virou emprego, a dinâmica mudou. Rodrigo já tinha um emprego tradicional, e investir o tempo livre num segundo trabalho não era simples. “O aprendizado foi separar 100% a vida privada da profissional e equilibrar horários e cargas de trabalho.” Hoje o canal é a principal fonte de renda de Elissa, com mais entrevistas, histórias de outros brasileiros espalhados pela Alemanha e produção para YouTube, Reels e TikTok. “A carga que o Alemanizando traz hoje é muito grande, mas, como emprego, ainda vale a pena.”
E para 2026, Elissa é direta — sem o otimismo fácil que circula nas redes. “Só vale a pena para profissionais qualificados, com proficiência em alemão ou inglês, com alguma facilidade burocrática e que tenham um motivo claro para sair do Brasil.” Dois alertas concretos: as demissões em massa, especialmente na área de tecnologia, e o avanço político. “A Alemanha caminha para um futuro governo de extrema direita avesso a imigrantes. Ainda não estamos nesse ponto, mas é outra coisa que é preciso estar sempre atenta.”

O que ela diria para quem está lendo agora, seja em Lisboa, em Berlim ou ainda em Porto Alegre pensando em vir? “Não venha até aqui só para mudar de CEP. Quando temos a oportunidade e o privilégio de conseguir viver algo novo, viva intensamente. Viva a cultura nova, os hábitos, o modo como as estações mudam e cada detalhe como se fosse uma nova pequena aventura diária.” E se não funcionar? “O mundo ainda tem outros 200 países e o Brasil sempre estará lá para você voltar. A vida é muito curta para viver onde você não encontra paz.”
